A GREVE DOS CORREIOS E OS SEUS ENSINAMENTOS PARA TODA A CLASSE TRABALHADORA
- Jornal do Juvevê
- 3 de set. de 2020
- 6 min de leitura

A empresa Brasileira de Correios e Telégrafos a ETC, ou simplesmente os Correios existe no Brasil como empresa pública desde o século XVII, ou seja, mais de três séculos e meio de existência. E nos dias atuais é a única empresa do país está presente em todos os mais de cinco mil municípios brasileiros com pelo uma agência dos correios ou um correspondente postal que atualmente são representados através de uma franquia dos Correios. E hoje são milhares de pequenas e médias agências franqueadas pelos correios às chamadas agências dos correios franqueadas, as ACFs.
Nesses 357 anos de sua existência os Correios inúmeras conquistas vieram para as trabalhadoras e trabalhadores ecetistas, muitas delas fruto das lutas e da organização coletiva das trabalhadoras e trabalhadores ecetistas, ou seja, pela organização sindical representada pelos seus diversos sindicatos e as suas federações. Porém, os Correios são mais uma de nossas históricas empresas estatais que esta sob ameaça de ser entregue ao ganancioso capital privado. Que busca a todo custo implementar um aparelho de estado no Brasil que “cuide” somente da segurança e olhem lá, pois quando falamos em manter segurança, falamos apenas da parte que cabe a repressão ou coerção social por parte deste aparelho de estado, ou seja, ficaria ao aparelho estatal apenas a autorização para o uso legítimo da força. Conceito Weberiano de coerção estatal utilizado contra as manifestações democráticas que muitas vezes são consideradas convulsões sociais, onde se faz necessária a utilização da forma mais autoritária de repressão pura e simples, a violência física por parte do estado para coibir a expressão popular. Violência essa muito vista nos dias de hoje ser exercida pelo aparato de repressão legal, que são as polícias militares e nas últimas décadas pela constituição de aparatos inclusive de polícias municipais, com formação paramilitar dessas organizações arcaicas e ultrapassadas, em muitos países desenvolvidos do mundo.
Mas enfim é essa a lógica do capital é tornar o estado apenas o detentor desta força de repressão. E com isso observamos muitos setores estratégicos de desenvolvimento da sociedade foram e estão sendo entregues as mãos de poucos, que não tem o compromisso social que tem uma empresa pública, como são o Banco do Brasil, que já não é mais cem por cento público, mas o Estado ainda detém maioria do controle acionário, ou como a Caixa Econômica federal, a Petrobrás e os Correios, dentre poucas outras que ainda se mantém estatais graças à resistência do povo Brasileiro que permitiu que na virada do milênio a ascensão de governos democráticos e populares que com uma visão de aparelho de estado diferente conseguiram por mais de uma década segurar essa onda entreguista e privatista, que voltou a tona com a chegada ao Planalto do desgoverno Bolsonaro trazendo a verve entreguista de volta de forma avassaladora para cima das estatais que ainda resistem. E essa ganância não é diferente com os correios.
A tentativa do desgoverno Bolsonaro em colocar o tema da privatização dos correios e antecipada por uma lógica perversa que norteia os capitalistas brasileiros, que consiste em enxugar as empresas, tornando-as atrativas do ponto de vista do mercado, ou seja, é necessário que haja um desmonte da estrutura que as empresas têm, com a diminuição dos seus empregados através de plano de demissão, ou então, retirando dessas trabalhadoras e trabalhadores seus direitos históricos que foram conquistados. E isso que vemos na atual tentativa do governo em acabar com as conquistas dos trabalhadores ecetistas. São esses ataques as conquistas das trabalhadoras e trabalhadoras ecetistas, para a extrema direita que se instalou no Planalto e seu ministro da Economia que só age com vistas a atender o mercado financeiro, que lhe dá sustentação, tem um efeito pedagógico para as futuras gerações de trabalhadoras e trabalhadores em geral.
E por isso que precisamos compreender que a ofensiva do capital, mesmo sob essa crise pandêmica sem igual que vivemos no mundo, é brutal, gananciosa e visa acabar com essas conquistas históricas do ecetistas, como dissemos e também das demais categorias para que não tenhamos nenhuma categoria de trabalhadores que possam se orgulhar dos seus benefícios conquistados e mantidos. A lógica que prevalece é a lógica que daqui a algum tempo as trabalhadoras e trabalhadores não tenham a referência das conquistas, ou de alguma categoria que mantenha conquistas. Parece estranho, mas temporalmente para a manutenção da lógica do sistema capitalista é assim que funciona. O que é muito triste pensar que temos um estado que na sua essência e concepção geral foi instituído para proporcionar o bem estar e qualidade de vida para todos que resolveram viver em sociedade.
E o governo Bolsonaro esboça uma pressa descabida nesse processo de privatizações, pois sabe que com o processo eleitoral em curso e uma possível virada na visão números de prefeitos e vereadores para outro norte que não o desta extrema direita raivosa e entreguista. Podemos ter uma reviravolta no clamor social colocando frontalmente contra esse processo de privatizações sem discussão social. Esses ventos eleitorais podem trazer outra percepção sobre o papel de um estado mais presente na vida das pessoas, reforçando a defesa dessas empresas e a necessidade de fortalecê-las para que possam desempenhar seus verdadeiros papéis sociais na vida das pessoas. E então, o desgoverno Bolsonaro age na pressa para que se a situação política vier a mudar todo o patrimônio histórico da sociedade brasileira já estará nas mãos de poucos gananciosos empresários internacionais ou nacionais.
E neste contexto é que vemos a resistência expressa através da Greve das trabalhadoras e trabalhadores dos Correios, os ecetistas, que na sua luta colocam outras importantes questões, além do que somente às questões sócias econômicos. Mas, estão resistindo a um processo perverso de entrega dos Correios e a transformação e um processo de retirada de direitos dos trabalhadores desta empresa que pode significar perdas de mais direitos ainda para todas as trabalhadoras e trabalhadores brasileiros, sendo o aprofundamento do que os grandes empresários internacionais e nacionais chamam de uma reforma trabalhista considerada tímida.
Portanto, a greve que acontece há mais de 15 dias e que se fortalece a cada dia não é só pelas questões de salário e benefícios históricos da categoria dos Correios é das que negocia com o Governo agora no segundo semestre. Mas as reivindicações das trabalhadoras e trabalhadores ecetistas têm outras pautas importantes, que são a ameaça da retirada de direitos históricos da categoria. E por que precisamos nos preocupar com isso, já que não somos trabalhadores dos correios? Em primeiro lugar pela solidariedade de classe, pois precisamos ser nos compreender como classe trabalhadora e ter em vista que defender os direitos de uma categoria é fundamental, por que foram conquistas que a luta sindical trouxe para essas trabalhadoras e trabalhadores.
E em segundo lugar por que precisamos entender como dissemos, que como classe trabalhadora as conseqüências desta greve, que não é só por salários, mas sim pela manutenção de direitos históricos dos ecetistas, pode se estender sobre todas as trabalhadoras e trabalhadores das mais diversas categorias da sociedade. Por isso procurei descrever acima a lógica dessa perversa da ação do capital financeiro e empresarial mundial. Principalmente a partir deste segundo ciclo de privatista que é a continuidade do primeiro ciclo implementado pelo que ficou conhecido no fim dos anos oitenta do final do século passado, como Consenso de Washington, que foi aplicação profunda do receituário neoliberal com orientação de privatização e entrega geral dos patrimônios nacionais em diversos países após queda dos regimes socialistas que através da guerra fria que impunha uma ação de política de bem estar social, para fazer frente à face social desses regimes que é uma ofensiva do neoliberalismo no mundo com características fascista de imposição dessa lógica. Após o desmonte de diversos governos democráticos e populares ao redor do Mundo. E em seu lugar tentando impor a lógica de estado mínimo. Esses governos estavam demonstrando que o aparelho de Estado pode ser um instrumento presente na vida das pessoas, principalmente das pessoas que mais necessitam das políticas públicas e programas sociais, com a presença de empresas estatais, cumprindo suas funções sociais, ajudando o desenvolvimento da sociedade. Em linhas gerais estavam demonstrando para o mundo que não é necessário colocar tudo nas mãos de poucos grandes empresários para que as coisas funcionem. Isso mesmo. Pois a lógica que volta a prevalecer nesse segundo ciclo de privatizações e a política de estado mínimo para tentar disputar a hegemonia dos sistemas econômicos na sociedade.
Por fim, fica nossa solidariedade as trabalhadoras e trabalhadores ecetistas em greve na defesa de seus direitos e que essa resistência, sirva para florescer a consciência e a resistência de classe para a maioria das trabalhadoras e trabalhadores que são vitimas deste desgoverno Bolsonaro que só tem compromisso com os grupos econômicos que o sustentam.
Marcio Kieller
Presidente da CUT/Paraná e Mestre em Sociologia Política pela UFPR
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