A GANÂNCIA DOS BANQUEIROS E A PANDEMIA DE CORONAVÍRUS
- Jornal do Juvevê
- 20 de ago. de 2020
- 6 min de leitura

Começaram as negociações da categoria bancária com os banqueiros. Nas mesas de negociação entre a Federação Nacional dos Bancos, a FENABAN que senta à mesa representando a Federação Brasileira de Bancos, a FEBRABAN/Confederação Nacional das Instituições Financeiras - CNF e os representantes das trabalhadoras e dos trabalhadores bancários e financiários que são capitaneados Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro a CONTRAF/CUT que representa mais de 90% das bancárias e bancários do país, junto com os dez maiores Sindicatos de Bancárias e Bancários do Brasil compõem o Comando Nacional dos Bancários.
O Comando Nacional nesta mesa representa as conquistas da nossa já consolidada Campanha Nacional dos Bancários efetivada no ano de 1992, com a assinatura da Convenção Coletiva de Trabalho Nacional dos Bancários. Ou seja, consolidada há quase 30 anos. Porém nem sempre foi assim, antes disso tínhamos uma situação totalmente diferente de organização da nossa categoria, que tinha uma forma de negociações e mesas com os bancos regionalmente, com conquistas e direitos conquistados regionalmente banco a banco. E nem todos tinham garantidos o que a luta separada entre eles alcançava em diferentes estados, mas não era garantia que isso seria efetivado para todos. Ou seja, em outros tempos, não menos difíceis que esses a nossa luta era feita de forma Isolada nas regiões, quando não em cada banco.
Esse cenário de organização regional trazia muitas dificuldades para as negociações que os sindicatos buscavam fazer nos representando. Pois muitas vezes nos bancos pequenos faltava força política e participação política mais presente dos bancários nas negociações. Enquanto nos bancos mais fortes e organizados representavam um grande contingente de trabalhadoras e trabalhadores bancários a situação era bem diferente. Este era o exemplo do Banestado que existia aqui no Paraná, antes de ser entregue para a ganância do sistema financeiro e dos grandes bancos, assim como muitos dos bancos estaduais. Mas esses bancos estatais e regionais que tinham um grande número de bancárias e bancários balizavam as lutas para os bancos privados que existiam. E as conquistas deles serviam de termômetro para as conquistas que os demais bancários tinham que buscar e construir nas suas negociações nem sempre com êxito, mas o fato é que os Estatais ou regionais como Banestado, que foi privatizado e o banco regional muito forte na época o Bamerindus, serviam de referência para a luta destes bancos privados menores, pela ausência de uma campanha nacional unificada que só viria a ser conquistada tempos depois.
Por outro lado os bancos federais sofriam enormemente com a política de desmonte por parte do governo central implementada pelos governos neoliberais dos presidentes Fernando Collor de Mello e depois de Fernando Henrique Cardoso faziam uma pressão política para a privatização do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal. Essas duas gestões políticas e administrativas do Planalto tinham claras orientações de se desfazer de todo o patrimônio público do povo brasileiro, não somente dos bancos, mas também de nossos recursos naturais, minerais, energia, comunicação, parque industrial, enfim colocar nas mãos de poucos grupos econômicos tudo quer o que era do povo brasileiro. Pois eram geridos pela vontade imperativa dos políticos e grupos econômicos e empresariais que estavam à frente e patrocinaram a chegada desses grupos ao governo central. Principalmente após o processo de abertura política no Brasil, com a saída dos militares esse grupos se fortaleceram no final dos anos oitenta o projeto neoliberal capitaneado pelos lideres mundiais do novo liberalismo econômico, figuras como Ronald Reagan, presidente dos Estados Unidos e da premier britânica Margareth Thatcher, que encabeçavam um projeto denominado de Consenso de Washington, projeto resultante do fim da guerra fria, que colocará um fim na disputa entre Estados Unidos e União Soviética e permitia que o capital voltasse toda sua voracidade para um projeto de ofensiva do capital.
Esta situação na prática trazia para o Brasil a lógica imperativa do capital financeiro através dos grupos políticos tentavam emplacar a política de estado mínimo que em linhas gerais entende que o estado brasileiro deve somente estar presente nos setores considerados essenciais para os brasileiros. Mas como ganância é ganância a dos bancos e dos grandes grupos econômicos de fato consideram que nem todos os setores eram essenciais, ou partiam para cima de setores rentáveis, mesmo sendo considerados essenciais, como educação, saúde, saneamento, energia, etc. Para o capital tudo não é essencial deve ser privatizado. Ficando somente a segurança pública, como essencial e, essa compreensão de essencial é somente da parte da segurança pública que se constitui em aparato de segurança.
O entendimento desses capitalistas, segurança somente como manutenção do domínio da força policial em nome da manutenção do “Status quo” para que o estado continue eternamente exercendo o conceito weberiano de uso legitimo da força. Estado que tem o poder de oprimir as classes trabalhadoras e menos abastadas para que elas não possam resistir e se levantar contra todas as atrocidades e a opressão de classe que historicamente são cometidas pelo sistema capitalista, em nome da ganância e da obtenção constante do lucro para poucas famílias, que nos chamamos de elites políticas encabeçadas pelos grandes produtores de terras, os empresários, donos de grupos de comunicação, do agronegócio e principalmente dos banqueiros.
Enfim, fora da área da segurança, tudo mais não devia estar nas mãos e sob controle dos governos central, muito menos dos estados. Na concepção dos privatistas tudo devia sim passar as mãos do setor privado ou da iniciativa privada concentrando o patrimônio de muitos brasileiros nas mãos de poucos empresários nacionais e internacionais, ou seja, lhes entregando de mãos beijadas, praticamente de graça toda a riqueza da nossa nação, que fora construída pela classe trabalhadora.
E dessa forma os bancos estaduais foram privatizados na maioria dos estados. E quando não consegue conter a sua voracidade, ao exterminar o bem público passa a exercer uma ação autofágica, o que durantes esses anos levou a uma concentração do capital financeiro que acabou com dezenas de bancos de varejo que existiam no Brasil, chegando aos dias de hoje nos seis bancos que se mantém que são os bancos Itaú, Santander, Bradesco e Safra, e entre eles resistindo ao desmonte por força interna dos seus funcionários e também pela defesa enfática que fazem do Banco do Brasil e da Caixa importante setores sociais, que sabem e reconhecem sua importância. Além de alguns poucos bancos estaduais e regionais de desenvolvimento regionais. Mas mesmo assim a sanha é constante para entregar os bancos públicos que conseguiram resistir a essa entrega, pela eleição dos governos democráticos e populares de Lula e Dilma que frearam o processo de entrega do patrimônio público e deram outra cara ao estado brasileiro, transformando o em um estado indutor do desenvolvimento com a implantação dos programas de aceleração do crescimento os PAC´s 1 e 2 e também com o desenvolvimento de políticas públicas inclusivas, políticas que nos levaram ao quase pleno emprego.
Porém esta época que foi desmontada pelo golpe parlamentar e institucional de agosto de 2016 que tirou Dilma, uma mulher honrada do poder e que introduziu a volta de políticas privatista de concentradoras, com programas políticos e reformas estruturantes que acabaram com direitos históricos da classe trabalhadora, bem como o seu sagrado direito a uma aposentadoria. Ou seja, a nova lógica só atente ao grande empresariado e aos banqueiros e as elites desse país.
E é neste cenário de crise econômica e social e ofensiva do capital especulativo e neoliberal agravada pela pandemia mundial de coronavírus que a categoria bancária vai travar a luta pela manutenção de suas conquistas e principalmente para continuar garantindo o que foi conquistado há 28 anos que foi sua convenção coletiva nacional, e também a continuidade da mesa única de negociação que tem trazido conquistas para a categoria. Sabemos que isso não será fácil por que no cenário esta colocado para o Comando Nacional do Bancários em primeiro lugar a defesa da vida das trabalhadoras e trabalhadores bancários e ao mesmo tempo precisará ser intrasigente na defesa dos direitos históricos conquistados pela organização nacional das bancárias e bancários nessas últimas décadas que resultou na Convenção Coletiva de Trabalho Nacional da Categoria, fruto de muita luta e organização.
Portanto, nos resta enquanto categoria dar todo apoio e suporte aos membros do Comando Nacional que negociam em nosso nome, seguir suas orientações de ações e de mobilizações e, até ir a greve se for à necessidade. Afinal, sabemos que é o único caminho e linguagem que os banqueiros compreendem se a diplomacia sindical não tiver resultado e não conseguirmos nas mesas de negociação arrancar dos banqueiros proposta razoável perante a quantidade de lucro que nós trabalhadoras e trabalhadores bancários produzimos para eles. Pois mesmo sob a maior pandemia da história da humanidade os lucros dos bancos foram astronômicos.
Por isso precisamos construir para além da categoria a solidariedade de classe e o dialogo com as trabalhadoras e trabalhadores. Pois sabemos que os avanços históricos que a luta das bancárias e bancários conquistou, manteve e ampliou, vai continuar servido de referência e incentivo para a luta de outras categorias de trabalhadoras e trabalhadores.
MARCIO KIELLER
Presidente da CUT/PR e Mestre em Sociologia Política pela UFPR
O Artigo não representa necessariamente a opinião deste site
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