As consequências da pandemia
- 15 de mai. de 2020
- 4 min de leitura
Jornal do Juvevê entrevistou a Professora de economia Françoise Iatski de Lima

Quais as consequências, até agora, para a economia do país, com o fechamento do comércio?
A grande consequência é um número maior de desempregados. Devemos lembrar que em isolamento social a demanda por bens e serviços diminui e para algumas empresas deixará de existir, como por exemplo para empresas de turismo. A principal consequência é a queda da renda e consequentemente o desejo e a compra de bens, que poderá gerar formação de estoques em nossas empresas, que diminuirão a produção e consequentemente o volume de empregos.
Depois que acabar a quarentena, haverá um número grande de desempregados? E de empresas fechando? E esse desemprego é devido a pandemia ou não?
Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios – Contínua (Pnad-C), divulgada pelo IBGE, a taxa média de desemprego no país caiu para 11,9% em 2019, sendo que, em 2018 foi registrada uma taxa de 12,3%. Mesmo com essa pequena queda de 2018 para 2019, a situação do mercado de trabalho já era delicada, com um grande número de desempregados. A pandemia veio a piorar o cenário. No caso do Brasil, o coronavírus intensificou um processo já existente de encerramento de empresas e desemprego.
A economia mundial e a brasileira voltarão ao normal quando?
Isso é muito incerto. O nosso antigo normal não existirá mais e teremos um “novo normal”. Não sabemos precisar essa data, mas acreditamos que voltaremos a uma vida, fora do isolamento social e com segurança, a partir do desenvolvimento e aplicação de uma vacina e isso pode demorar em torno de um ano e meio, logo, a economia não voltará a crescer no curto ou médio prazo. O que temos é a certeza que cientista no mundo inteiro estão trabalhando para o mais rápido possível voltarmos ao mais próximo do cenário anterior a pandemia.
A população brasileira irá consumir de uma forma mais organizada, comprando o básico, ou continuará da mesma maneira.
Partindo da premissa que consumidores são agentes racionais, é provável que a população tenha um consumo mais consciente. Significa não comprar por impulso ou influência do marketing, mas por necessidade. A renda no mundo irá diminuir, logo, a demanda também, e passaremos por um processo em que teremos que escolher aquilo que é mais relevante para nosso orçamento. Também daremos mais valor ao ciclo de vida dos produtos. Com o passar do tempo, veremos que podemos utilizar por mais tempo aparelhos celulares, por exemplo. Os bens serão menos descartáveis. E claro, esperamos mais atitudes positivas em relação ao meio ambiente.
Os Recursos produtivos (trabalho, capital, tecnologia, recursos naturais, capacidade empresarial) isso tudo poderá ser prejudicado com a estagnação da economia?
Nem todos os recursos, mas trabalho, capital e capacidade empresarial talvez. Em se tratando de recursos naturais, veremos renovação. Temos notícias positivas sobre a queda da emissão de poluentes na atmosfera, assim como, menos resíduos industriais no meio ambiente. No entanto, quando pensamos em outros fatores, como trabalho e capital, teremos ociosidade. A tecnologia poderá ser transferida de um setor a outro e nossa capacidade empresarial passará por mudanças. Vamos ter que nos reinventar!
O nosso país sempre teve uma inflação alta, quando essa pandemia acabar, você acredita que ela piore?
Um mínimo de inflação é necessário na economia. Significa que existe circulação de renda. Existem pessoas desejando e comprando bens e serviços. Se a inflação chegar a zero ou números negativos, é preocupante. Significa o contrário: o desejo por bens diminuiu e provavelmente a economia está formando estoques e para vender seus estoques, diminuindo preços. Segundo dados disponíveis no Banco Central, nesse momento temos 2,40% de inflação, acumulada nos últimos doze meses. Estamos abaixo do centro da meta de inflação para o ano de 2020 que é de 4% a.a. e a cada mês percebemos um forte desaquecimento econômico que, mesmo com políticas econômicas expansionistas, afetará pouco o índice inflacionário.
Segundo a economia positiva (que faz a descrição e a explicação da realidade) e a economia normativa (que faz a compreensão e a previsão do que nós podemos ter pela frente). Partindo dessas métodos gostaria de saber a explicação da realidade na questão econômica (economia positiva ) e o que podemos ter pela frente (economia normativa)
Essa pergunta nos leva a lembrar que o coronavírus não somente gerou crise na saúde pública mas também crise econômica. Atualmente estamos enfrentando um momento de queda do PIB brasileiro, com pouco investimento em Pesquisa & Desenvolvimento por parte do governo, inflação abaixo do centro do sistema de metas de inflação e taxa de juros em queda a cada reunião do COPOM. É um cenário triste!
Os juros diminuem para aquecer a economia e gerar mais investimentos em produção, dado que os custos com financiamento com máquinas, equipamentos e capital de giro diminuem. No entanto, devemos pensar que é muito urgente a participação do governo gastando mais, por meio de emissão de moeda, se for necessário. Precisamos gerar demandantes de bens e serviços para fazer a economia girar. Do contrário, de nada adiantará nossos empresários investirem em bens de capital se não tiverem consumidores com renda para comprar os bens finais que serão produzidos.
Em momentos críticos em que o mercado não consegue se auto regular e resolver suas falhas, precisamos reagir como outros países estão reagindo, estão gastando mais, colocando renda para circular. Um grande passo é aceitar o covid-19 e entender que a única medida comprovadamente eficaz, até o momento, é o isolamento social, que até mesmo poupará gastos com novas UTIs de urgência no país. Após, o governo poderia atender a população vulnerável e com ela gerar, por meio da transferência de renda, a demanda por bens e serviços.
Não temos como afirmar o que teremos pela frente, mas podemos estimar que se o governo participar mais da economia, de forma rápida e eficaz, poderemos amenizar os resultados negativos.
Professora de Economia Françoise Iatski de Lima



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