20 ANOS SEM O BANESTADO, O BANCO QUE ERA A ALMA DO DESENVOLVIMENTO E DO POVO DO ESTADO DO PARANÁ.
- Jornal do Juvevê
- 16 de out. de 2020
- 9 min de leitura

Para milhares de famílias, inclusive a minha, o mês de outubro é um mês muito complicado, por que traz lembranças de uma época de desenvolvimento e de pujança para as e os paranaenses que tinham no Banco do Estado do Paraná, o Banestado um instrumento forte e eficaz de desenvolvimento social, de segurança e de geração de empregos internos e externos.
Para compreendermos um pouco do cenário que permitiu à entrega do Banestado que fazia parte de uma profunda politica ofensiva da iniciativa privada neoliberal é necessário contextualizarmos disputa política internacional que estava sendo desenvolvida após o fim da guerra fria, que enquanto durou deu uma garantia tácita à existência de politica de bem estar social que foram desenvolvidas por diversos países do mundo que compunham o bloco ocidental, ou liberal como prefere a literatura politica. A politica de desmonte dos estados nacionais com a entrega dos seus parques tecnológicos e suas principais estatais e as mais desenvolvidas se deu com o final da guerra fria, ou seja, com a derrocada da União Soviética e a queda do Muro de Berlim, símbolos que há que há décadas sustentavam o medo e o receio dos ventos socialistas, pudessem implodir as políticas capitalistas impostas aos blocos geopolíticos. E isso garantia que as políticas de bem estar social e, estados relativamente fortes fossem mantidos. Mas o símbolo do novo período liberal fez com que se mostrassem as garras e a ganância voraz do capitalismo na entrega do que os estados democráticos haviam construído de patrimônio dos povos. Diversas empresas que compunham o patrimônio nacional dos brasileiros foram entregues na virada dos anos oitenta para os anos noventa.
E junto nesse pacote de benesses dados de mãos beijadas a iniciativa privada nacional e internacional fossem também entregues os bancos públicos estaduais e regionais, seguindo a risca as regras da lógica do neoliberalismo internacional implementada e capitaneada por Ronald Reagan, presidente dos Estados Unidos da América, e por Margareth Thatcher, primeira ministra da Inglaterra, que após o processo de queda da União das Repúblicas Socialistas Soviética, a URSS, que pôs fim a um longo processo político de guerra fria que dividia o mundo entre os blocos geopolíticos configurados em blocos socioeconômicos formados pelos neoliberais de um lado e pelos socialistas de outro.
Infelizmente há exatos 20 anos não são mais assim. Perderam todos. Perderam as funcionárias e funcionários, perderam suas famílias, perderam as comunidades em torno do banco, perdeu a cidade de Curitiba e muitas outras. Perdeu o Parará. A ganância e a busca desenfreada do lucro por parte dos banqueiros nacionais e internacionais levaram a uma concentração nunca vista no mercado financeiro, que concentrou o sistema financeiro nacional nas mãos de somente seis bancos, dois grandes bancos nacionais, Bradesco e Itaú/Unibanco – Unibanco que foi engolido pelo Itaú. Dois bancos estrangeiros Santander e HSBC que atualmente foi comprado pelo Bradesco e dois bancos públicos, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal que ainda resistem bravamente à política de desmonte dos governos entreguistas e extremamente privatistas de Fernando Collor de Mello e de Fernando Henrique Cardoso.
E o Banco do Brasil e a Caixa, e alguns desses bancos regionais só resistiram por que esses governos entreguistas perderam as eleições em 2002, para o projeto democrático e popular encabeçado pelo presidente Luís Inácio Lula da Silva em 2002 a 2010 e continuado pela presidenta Dilma entre 2010 a 2016, interrompido pelo Golpe. Esse período que chamamos de democrático e popular foi que deu um fôlego a resistência e a defesa desses bancos.
Porque, nesse período conseguimos provar que o que se precisava nesses bancos era moralizar suas más gestões e não somente por que alguns poucos deles eram mal geridos, devíamos jogá-los nas mãos da iniciativa privada gananciosa. Fomentando a política de desmonte e destruição que avançou para todos os bancos regionais de diversos estados do Brasil. Bancos fortes, sem problemas de liquidez, com quadro de funcionárias e funcionários extremamente preparados e qualificados, escolhidos por concursos públicos que garantiam a impessoalidade no tratamento dos negócios e dos investimentos do banco, no tratamento dos dados e das operações que atendiam dos pequenos aos grandes comerciantes, que atendia as trabalhadoras e trabalhadores da agricultura familiar, os pequenos médios e grandes trabalhadores do campo. Assim como atendia aos empreendedores das cidades nas incubadoras de negócios. Enfim, o Banestado tinha função social, ajudava a trazer a política de juros sobre as operações de outros bancos para patamares dentro da realidade. Fazia com que o Estado se desenvolvesse e com que as pessoas prosperassem.
Mas a Privatização arrancou a alma do Banestado, que em poucos meses caiu desfalecido sem forças, tendo todo o seu sangue e vigor que eram a prosperidade do povo paranaense sugada por aqueles que na viseira administrativa só tinha a sua frente se apropriar das milhões de conta de paranaenses, para enquadrá-los nas rédeas normais de uma sociedade capitalista. Ou seja, o rentismo e o acumulo de lucros desenfreados. O Itaú não manteve a política de investimentos que um banco, mesmo que não seja um banco publico necessita ter, pois é uma concessão de funcionamento, que através das condições assumidas precisas ter papel social. E o que observamos nessa lacuna de 20 anos sem o Banestado no Paraná. O abismo sócio econômico em que o estado se meteu.
Um banco que estava presente em mais de 380 municípios paranaenses, que tinha aproximadamente 17.000 funcionários espalhados por mais de 400 agências pelo Brasil e fora dele, por diversos centros administrativos regionais e com um centro administrativo, o CEAD/Banestado, que chegou a reunir nos áureos tempos do Banestado mais de 3000 pessoas, isso estamos falando de empregos diretos gerados, sem falar nos empregos indiretos que o Banestado gerava, por exemplo, em torno do CEAD havia um desenvolvimento geográfico muito específico, fazendo com o que o bairro da Santa Cândida (Curitiba), fosse um polo forte de comércio local, que em função da quantidade de pessoas que circulavam pela região, o que fazia com que o desenvolvimento comercial de serviços acontecesse. Com a privatização do Banestado o bairro do Santa Cândida também sofreu muito do ponto de vista do seu desenvolvimento socioeconômico. As casas e terrenos que no bairro tiveram por anos, grande procura e se valorizam na região, pois antes eram procuradas pelos funcionários que queriam morar próximos do seu local de trabalho, simplesmente desvalorizaram, perderam seu valor. Esse foi um dos grandes problemas, não só para o Santa Cândida, mas para os bairros do entorno e também para todo Paraná.
Após a privatização, as estruturas do Banestado se reduziram quase que a pó, de uma estrutura gigantesca de prédios de agências, áreas de reflorestamentos, propriedades como um todo foram vendidas a preço de banana. E depois também consequentemente a estrutura que pertencia aos funcionários que eram ligados a Associação Banestado também se reduziu drasticamente, pelo esvaziamento no número de sócios. Complexos inteiros de chácaras e estruturas de campo, com piscinas, campos de tênis e de futebol, também foram vendidas para que a Associação pudesse sobreviver. Somente o que o banco tinha em termos de propriedades como diversos terrenos e propriedades, dentre eles o grande terreno onde se encontrava o Centro Administrativo Banestado.
O Centro Administrativo do Banestado para ter uma ideia das suas dimensões foi uma das poucas estruturas, senão a única que no processo de entrega do banco foi dado em comodato para o Governo do Estado por 20 anos e virou uma estrutura de Secretarias de Estado, que abrigava dentre outros institutos como o Ipardes. E agora ao findar o período de comodato, foi integrado ao patrimônio do Itaú, valia uma pequena fortuna, pelo espaço geográfico e as construções que nele havia na época da privatização composta por seis blocos, extremamente conhecido dos banestadenses: o Bloco 1 – que abrigada às diretorias, o bloco 2 – que abrigava o maior número de divisões e departamentos, um verdadeiro labirinto, que só se acostumava quem tinha por lá uma rotina. O Bloco 3 - que era o Bloco da Banestado Informática e a BABS que respondia pelos serviços gerais, o bloco 4 - que era o bloco onde se guardavam os suprimentos do Banco e servia também de estacionamento para os carros dos oficiais e caminhões do banco. E o bloco 5 - que tinha o restaurante do Banco por muitos anos e também o serviço médico e psicológico, chamado de serviço médico do trabalho. E por último foi construído no final dos anos oitenta, o bloco 6 que era um espaço de cursos e treinamentos interno de preparação das funcionárias e funcionários do Banestado.
Tudo se perdeu, juntamente com muitos sonhos e esperança de ver um Paraná forte e desenvolvido. O Governo do Estado criou uma agência de fomento que assumiu alguns compromissos com a Secretaria de Desenvolvimento Urbano (SEDU). Mas que não chegou nem perto do que representava o Banco do Estado do Paraná e seus programas como o Panela Cheia, o Bom Emprego, o Finame, dentre outros programas que eu tive a oportunidade de, através do departamento de operações e desenvolvimento, o DEODE, em participar e ver a grandeza das operações que eram desenvolvidas, milhares de operações de desenvolvimento onde o banco dava crédito para que os paranaenses que queriam empreender pudessem fazê-lo, com juros acessíveis. E esses empreendedores iam desde os microempresários a grandes construtoras que se utilizavam dessas linhas de crédito no Banestado.
Em poucos anos após a privatização vimos definhar uma estrutura de porte, que gerava políticas regionais e milhares de empregos para os paranaenses, inclusive os empregos do próprio banco. Começou uma debacle total. Diminuição das funcionárias e funcionários do banco, através de PDV´s ameaçadores, que vinham com a tarja de que quem não aderisse não teria mais a garantia de emprego antes garantida pelos concursos públicos do banco. Em poucos meses vimos muito trabalhadores terem que ir para o mercado de trabalho buscar se colocar. E como vivíamos um tempo de avanços tecnológicos o que vimos foi que somente os mais preparados e atualizados com o que o mercado exigia conseguirem se estabelecer.
Muitas trabalhadoras e trabalhadores do banco passaram ter que viver de empregos precários ou sub-empregos para sobreviver, não foram poucos ex-funcionários do Banestado que haviam sido demitidos, ou que aderiram aos PDV que tempos depois estavam nas ruas entregando panfletos, ou até cuidando de carro para poder complementar a renda familiar. Essa situação se espalhou pelo estado inteiro com a incorporação das agências do banco e cada vez mais demissões. E o que observamos foi um cenário de terra arrasada pela privatização de um grande banco do Estado.
Por isso 20 anos depois da privatização, onde não existem mais nem agências do Banco Itaú/Unibanco, pois hoje elas funcionam, não pela lógica do papel social que um banco deve ter, mas sim pela lógica da ganância e do lucro. Ou seja, se a agência não é rentável fecha. O que deixa somente em algumas cidades as agências dos Bancos que ainda são públicos com a Caixa e o banco do Brasil. Ou quando muito, agências de correspondentes bancários que se utilizam de estruturas de outras estatais que também estão ameaçadas pela nova onda neoliberal de extrema direita que assola nosso país. Ou seja, corremos o risco de muito rapidamente vermos as pequenas cidades se extinguirem por que as estruturas logística e financeira estão a dezenas ou mais de centenas de quilômetros de distância.
Por isso é necessário que façamos nestes 20 anos que se completam da entrega do patrimônio do povo paranaense que era o Banestado, reflexões importantes no sentido de defendermos os Serviços Públicos, os bancos públicos e as estatais que ainda restam. Assim como defender o Sistema Único de Saúde, o SUS que garantiu que a catástrofe não fosse ainda pior o número de casos e mortes ocasionados pelo coronavírus, agravada pela irresponsabilidade da gestão Bolsonaro sobre essa pandemia sem precedentes no mundo.
Essa reflexão e esse olhar de como o Paraná esta há 20 anos sem seu instrumento de fomento e desenvolvimento que era alma do povo do Paraná nos tragam importantes lições para o presente e para futuro de como devemos ter um estado forte presente na vida daquelas e daqueles que mais precisam das políticas públicas e dos programas sociais que são desenvolvidos por esses estados para a maioria do povo. Ou seja, serviços públicos e educação de qualidade, com acesso as políticas públicas e serviços de excelência.
Marcando a lembrança histórica desses 20 anos da entrega do nosso patrimônio, a Central Única dos Trabalhadores do Paraná não podia deixar de lembrar essa covardia com o povo paranaense que foi a privatização do Banco do Estado do Paraná, o Banestado. Por isso está promovendo a realização em parceria com o Sindicato dos Bancários de Curitiba e Região e da Federação dos Trabalhadores em Empresas de Credito do Paraná, ligados a CUT, uma websérie em três capítulos relembrando como foi o antes da privatização, o durante o processo e a resistência das entidades sindicais e das trabalhadoras e trabalhadores e as consequências nefastas para todos que foram atingidos pela privatização do Banestado. Websérie que ficará disponível nas redes da central para que todas e todos possam ter contato com essa memória histórica de luta do banestadenses e do povo paranaense em defesa de seu patrimônio.
Marcio Kieller
Presidente da CUT Paraná e mestre em Sociologia Política pela UFPR
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